Como a palavra amor sai naturalmente das nossas bocas

Rubia Sousa da Silva

como a palavra amor sai naturalmente das nossas bocas é uma oferenda carinhosa que rúbia vaz nos lega, ao recontar a narrativa de ofélia sob a ótica do gaslighting e da violência psicológica contra a mulher, enquanto elabora também sua própria vivência em práticas que embaçam as divisas entre o relato e a ficção. nos últimos quatro anos, tenho tido o prazer de acompanhar rúbia nesse projeto, atravessando são paulo, santo andré e rio de janeiro. a peça me espanta: como uma testemunha, me vejo ouvindo as palavras fluviais, ressonantes, em acontecimentos que ameaçam desaguar no conhecido leito da tragédia. aqui, no entanto, jazem as águas com as quais rúbia verte o fluxo que confina o imaginário de ofélia, evidenciando sua capacidade de escutar os muitos sons soterrados. nesse sentido, rúbia é generosa: permite que ouçamos também, como que entreouvindo o desenrolar, por vezes sem dimensionar o todo, mas sempre atentos para o presente da situação. o prólogo se faz incontornável: obrigado por estarem presentes. recordo essas palavras nos mais diversos contextos, e a peça vibra em algum lugar do meu corpo. presentes. que capacidade fantástica de nos revirarmos apenas pela enunciação da memória! o presente, esse algo que se dá, também é algo que se carrega, uma pedra que se distribui, que se recolhe e pela qual se é possível rememorar. rúbia vaz nos mostra, com efeito, que o ato corajoso de rememorar é um projeto do agora, um passado verdadeiramente presente, que ela explora e revela com maestria. tenho experienciado um prazer e aprendizado nos últimos cinco anos, um privilégio que agradeço e reagradeço, a dádiva de ver um processo criativo para além de seu tempo dedicado, de seu espaço especializado, para fora do teatro. o presente de ver a elaboração da artista em sua vida, de ouvir as palavras ressoarem antes da retina. rúbia vaz é um presente, e certamente como a palavra amor sai naturalmente das nossas bocas é a materialização da sua engenhosidade como dramaturga, diretora, performer e pesquisadora. que as palavras desse livro sejam presentes aos nossos ouvidos.

Arthur Murtinho

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